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IMIGRAÇÃO E CULTURA RUPTURA COM AS RAÍZES PORTUGUESAS?

Maria Arminda do Nascimento Arruda
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É usual na bibliografia dedicada à reflexão do movimento imigratório tratar da complexa relação dos recém-chegados com a tradição local. Oriundos de culturas diversas, por vezes muito distantes, os imigrantes são estudados, especialmente, no prisma do estranhamento, das dificuldades de adaptação e de integração no novo ambiente, da reconstrução das identidades, das trocas advindas do processo de assimilação dos estrangeiros e do mútuo impacto produzido no contato entre estrangeiros e nacionais.

A imigração afigura-se, por isso, um fenômeno total, na medida em que atinge, de modo indelével, as culturas nacionais envolvidas, postas numa relação inescapável. Rigorosamente falando, se a imigração reconfigura a autopercepção dos agentes, transforma, sobretudo, imagens sedimentadas das nações, obrigando-as a absorver construções diversas das suas, por provocar a redefinição das alteridades.

No caso do Brasil, uma dimensão de grande significado no tratamento das relações entre imigração e cultura não tem sido suficientemente considerada, qual seja, a que se indaga sobre as conexões existentes entre os imigrantes aqui aportados e a construção das instituições da cultura, especialmente do mecenato cultural e do seu papel emulador na mudança das linguagens da cultura. A dinâmica do modernismo brasileiro, especificamente o de raiz paulista, guardou fundas conexões com a imigração, desautorizando procedimentos que obscureçam os elos que os prendem. Se o problema central subjaz à consideração desses acontecimentos mutuamente referidos, outras questões se impõem à análise: a viabilidade de exercício do mecenato pressupõe tanto processos de ascensão social, quanto disponibilidade para o patrocínio da cultura; tais disposições não ocorreram de forma disseminada em todos os grupos
imigratórios; as atividades culturais foram assumidas desigualmente como mecanismos de reconhecimento e legitimação. No meio século XX, a metrópole paulista foi paradigmática no sentido assinalado, no momento em que forças sociais e econômicas convergiram para a criação de instituições culturais de grande porte.