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IMIGRAÇÃO PORTUGUESA EM SÃO PAULO: MEMÓRIAS, GÊNERO E IDENTIDADE

Maria Aparecida Macedo Pascal
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Falar da imigração portuguesa constitui "o resultado histórico de um encontro entre o sonho individual e uma atitude coletiva''.' Essa frase sintetiza a importância das histórias de vida para entender o conjunto das experiências humanas no processo histórico, ou a articulação existente entre os indivíduos e as transformações sociais. Pode-se dizer que, se as pressões agem sobre os indivíduos, estes elaboram essas pressões de acordo com sua experiência pessoal, transmitida por gerações através das tradições.

Nossa pesquisa procurou dar voz às imigrantes portuguesas que chegaram ao Brasil entre as décadas de 1920 e 1950 . As imagens, as questões, os valores e a reconstrução de suas trajetórias estão carregadas de significados, já que a memória seleciona o que lhe parece relevante. Na construção das fontes orais, sugeriu-se na entrevista enfatizar pontos tais como as atividades da família antes de vir para o Brasil, a infância, a mocidade e as lembranças da terra, a viagem, as redes sociais, a chegada, os primeiros tempos, os contatos com a comunidade portuguesa, o cotidiano, a família, o casamento, os filhos, as tradições preservadas, a volta a Portugal e a avaliação da trajetória de toda uma vida passada no Brasil.

Ao longo desses relatos pode-se repensar a história da imigração privilegiando a experiência e o olhar feminino sobre esse processo. Abrem-se, assim, novas páginas de uma história não desvendada da imigração: a história dos grupos de imigrantes foi "principalmente documentada de fora, como um problema social". Uma abordagem de dentro do processo, através dos relatos
de vida, com certeza vai se tornar mais interessante. Embora as pressões económicas e sociais influenciem as decisões para emigrar, o testemunho resgata as redes sociais, as negociações familiares e todo o imaginário social que envolveu esses imigrantes. Contar uma estória é tol!lar as armas contra a ameaça do tempo, é resistir ao tempo ou controlar o tempo. Contar uma estória preserva o narrador do esquecimento; a estória constrói a identidade do narrador e o legado que ela ou ele deixa para o futuro. 

,Portanto, a história de vida é algo vivo, pulsante, em que os narradores examinam seu próprio passado enquanto a narrativa flui. As entrevistadas deste estudo passam a falar de suas vidas e suas memórias.

Maria Armandina Ferreira Marques, 88 anos, viúva, nasceu em Lisboa e chegou ao Brasil em 1948, com 33 anos. Carminda Domingues Macedo, 88 anos, casada, nasceu no Estoril, em Lisboa. Chegou ao Brasil em 1 924, com sete anos. Delmina da Conceição Lourenço Gonçalves, 71 anos, casada, nasceu em Bragança, Trás-os-Montes. Chegou ao Brasil em 1959, com 44 anos. Maria Joaquina Pedrão, 88 anos, solteira, nasceu em Talhas, Macedo de Cavaleiros, Trás-os-Montes. Chegou ao Brasil em 1 928, com sete anos . Maria Marques Lopes Varanda (Maria Silvina) , 78 anos, viúva, nasceu em Gramantinha, Coimbra. Chegou ao Brasil em 1 929, com quatro anos.